Poder para testemunhar

“Recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até aos confins da terra.” (At 1.8.)


O Senhor Jesus Cristo afirmou categoricamente: “Sereis minhas testemunhas”. Suas palavras não dão chance a desculpas. Cada cristão deve ser uma testemunha – testemunha do poder redentor da graça divina. Todavia, junto a essa ordem, está a promessa de poder, pois ninguém pode ser testemunha de Jesus Cristo sem o poder do Espírito Santo. Pelo menos, sem ele ninguém pode dar um testemunho eficaz de Jesus Cristo. Deve haver muitas testemunhas, mas a maioria delas não tem poder, e o testemunho que dão é infrutífero. Que terrível acusação! Que grande humilhação é ser testemunha de Cristo, tendo a promessa de um poder sobrenatural, e, mesmo assim, não produzir frutos!

Grande parte da evangelização em nossos dias é destituída de poder, e, por isso, só produz indivíduos que se supõem salvos, mas que não evidenciam a regeneração de que fala a Bíblia. Essas pessoas, com uma experiência cristã estéril e insatisfatória, aprendem a crer que estão eternamente salvas do inferno – embora não estejam ainda salvas do pecado e nem do poder e do domínio da vida egocêntrica. Esses convertidos, como são chamados – na verdade, apenas “meio-salvos” –, são exortados a se tornarem testemunhas ou ganhadores de almas. Recordo-me bem de que, no início de minha vida cristã, dava-se muita ênfase ao testemunho. Cada um de nós aprendia que devia ser um ganhador de almas para Cristo, e Atos 1.8 era citado constantemente para provar tais afirmativas. Todavia, não nos diziam uma palavra sequer a respeito do poder do Espírito Santo – o único que qualifica e capacita o cristão para ser uma testemunha eficiente e verdadeira do poder salvador que está em Jesus Cristo. Como resultado, naturalmente, muitos poucos eram tocados pela nossa pregação a ponto de buscar o reino de Deus. Creio que alguns tiveram êxito por acaso, mas o resultado obtido de muitos dos testemunhos que eram dados, como acontece ainda hoje, foi bem insignificante. Qualquer homem com um pouco de visão para negócios, se visse o grande número de membros necessários para produzir um número tão pequeno de convertidos, nunca diria que o trabalho da igreja é um “negócio lucrativo”. Hoje, o que está nos faltando é poder.

Por que, então, os crentes fundamentalmente ortodoxos se mostram calados a respeito do Espírito Santo e do seu poder? (Grande parte do que se diz e escreve sobre este assunto invalida, por meio de várias explicações, a promessa do poder.) Isso é obra do inimigo. Sim, o diabo, até certo ponto, tem conseguido enganar a igreja, levando-a a crer que todos os cristãos têm o Espírito e o poder. A evidência, porém, é bem outra, uma vez que o poder constitui uma raridade na igreja. Por que a pessoa engana a si mesma, crendo possuir aquilo que não se manifesta em sua vida?

O registro contido no livro de Atos dos Apóstolos ensina claramente que uma pessoa pode ser salva e não ser batizada com o Espírito Santo e com poder. Por exemplo: a experiência dos 120 discípulos no Cenáculo, ou a dos samaritanos, ou a do apóstolo Paulo, ou a dos crentes de Éfeso, todas indicam a possibilidade de o homem ser salvo sem ser batizado com o Espírito Santo. Se considerarmos o sentido das palavras de Cristo em sua oração sacerdotal, teremos de admitir que os discípulos eram crentes antes do Pentecostes. No dia da ressurreição, Jesus soprou sobre eles e então receberam o Espírito Santo. Antes disso, Jesus afirmara que o mundo não podia receber o Espírito. Por isso, os discípulos certamente já estavam salvos no dia da ressurreição. Semelhantemente também os samaritanos já estavam salvos antes de Pedro e João impor-lhes as mãos, depois do que receberam o Espírito Santo. O apóstolo Paulo, sem dúvida, converteu-se na estrada de Damasco, mas, apenas três dias depois, um cristão nascido de novo, comissionado pelo Senhor Jesus, o visitou. E assim, por intermédio de Ananias, Paulo recebeu o Espírito Santo. O único ponto discutível é o caso de Cornélio e seus familiares. Foram salvos e batizados com o Espírito Santo no mesmo dia – embora muitos estudiosos bíblicos creiam que Cornélio já estava regenerado quando mandou chamar Pedro. Mas, mesmo que Cornélio não fosse ainda uma pessoa regenerada quando chamou Pedro, a experiência da justificação e da santificação e o revestimento do poder poderiam ter sido duas operações da graça de Deus. O intervalo de tempo não importa. Finalmente, se os crentes efésios eram cristãos evangélicos ou não isso não vem ao caso. O apóstolo os considerou cristãos e lhes perguntou: “Recebestes, porventura, o Espírito Santo quando crestes?” (At 19.2.)

O registro de Atos dos Apóstolos é frequentemente contestado com a seguinte alegação: “Aquele era um período de transição; hoje é diferente”. E como! Por quanto tempo vamos continuar diferentes? Temos um grande número de crentes sem poder. E a igreja continuará sem poder enquanto a sua inspiração provier de homens. Precisamos buscar em Deus a inspiração. O fundamentalismo ataca sempre o catolicismo romano pelo fato de aceitar a autoridade infalível do papa. Mas o fundamentalismo também tem os seus “papas”, visto que cada geração parece produzir pelo menos um ou mais deles. (Algumas vezes temos até rivais reinando ao mesmo tempo.) Suas “encíclicas”, não raro, são tão autoritárias como as do papa da Igreja Romana. E esses “dogmas evangélicos”, às vezes, aparecem em livros e em artigos de revistas. E, se o autor deles chega a alcançar um status incomum, suas encíclicas podem até aparecer em notas de rodapé nas páginas da Bíblia. Inúmeras pessoas creem que essas notas ou comentários são inspirados no real sentido bíblico, mas, no entanto, conferem-lhes a mesma autoridade das Escrituras. Todos esses escritos têm um ponto em comum – a tendência de anular os claros ensinamentos da Palavra de Deus no tocante ao batismo com o Espírito Santo e o poder que dele advém. Isso rouba aos cristãos – àqueles que lhes dão crédito – importantes partes da Bíblia. Portanto, os cristãos devem retornar à Palavra de Deus. Precisamos buscar não apenas as promessas que devemos aceitar, receber e nelas crer, mas também os exemplos, os mandamentos e as admoestações que as Escrituras contêm.

Na conversão, a pessoa nasce de Deus, de um modo sobrenatural. Essa experiência é sempre precedida por um arrependimento verdadeiro; e vem sempre seguida pelo testemunho do Espírito Santo. Antes da conversão, o pecador já está condenado, embora sua pena esteja temporariamente suspensa; depois da regeneração, ele entra naquilo a que podemos chamar de período probatório. Assim, a conversão não é o fim da estrada, mas apenas o fim da busca de um caminho certo. Depois, começa a caminhada – os dias de oportunidade, de privilégio e de poder. Para isso, a obediência é essencial. Muito embora a obediência – da mesma forma que o arrependimento – seja insuficiente para salvar o homem ou preservar-lhe a fé, ela é, no entanto, uma condição necessária. Do mesmo modo que não é possível crer em Deus para a salvação sem experimentar um arrependimento verdadeiro, assim também, sem a obediência ninguém possui fé para crescer na vida cristã. E a razão é simples: não podemos caminhar em duas direções ao mesmo tempo.

A Bíblia afirma que o caminho reto – a estrada da santidade – é seguro. “E ali haverá bom caminho, caminho que se chamará o Caminho Santo; o imundo não passará por ele, pois será somente para o seu povo; quem quer que por ele caminhe não errará, nem mesmo o louco. Ali não haverá leão, animal feroz não passará por ele, nem se achará nele; mas os remidos andarão por ele.” (Is 35.8,9.) Mas essa estrada está situada entre dois extremos. De um lado, está a deturpação da Bíblia, o fundamentalismo convencional, a fé superficial, a ênfase às dispensações. Do outro lado, acha-se o fanatismo, o emocionalismo, o extremismo e outros “ismos”. É preciso que nos conservemos no caminho certo. A estrada é segura, é eterna. Mas é preciso que nos conservemos nela. Isso nos torna aptos a receber o poder do alto. O poder não é concedido como recompensa da santidade, mas é dado àqueles que se acham no caminho certo. Os negligentes, os desobedientes e os incrédulos nunca estão qualificados. Os ignorantes desconhecem tanto o que foi prometido como a maneira de receber o cumprimento da promessa; os iludidos creem que já possuem tudo, e, por isso, não buscam nem recebem. (O ministério deles é muitas vezes como “uma tempestade em copo d’água” e, após muitos anos de atividades, olham para trás, desconsolados, por causa dos resultados tão escassos.)

Para concluir, devemos perguntar-nos o seguinte: “Jesus prometeu ou não o poder do Espírito Santo? Prometeu ou não, que as obras que ele fez também nós as faremos, e até maiores?” Sim, de fato, são gloriosas as promessas de Jesus, pois ele declarou que esse poder seria nosso, “pois vou para junto do Pai”. Quando Jesus subiu para junto do Pai, enviou o Espírito Santo com o poder para que descesse sobre (não somente para morar dentro) todos os que têm sede e estão preparados. A pergunta que se nos apresenta, então, é: “Eu tenho esse poder?” Se a resposta for negativa, então surge outra pergunta: “Estou disposto a fazer tudo o que for necessário para recebê-lo?”


O Pr. Ted A. Hegre é o fundador da Missão Evangélica Betânia. Faleceu em 1984. Deixou vários artigos e livros escritos, além de uma obra missionária que tem crescido e se espalhado por vários países do mundo, inclusive o Brasil.

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